valdesculca

Num lugar que já não o é e onde sempre volto, as imagens que construo e aquilo que penso e vejo nos lugares por onde ando.

Um balão, a felicidade e eu

O meu longo silêncio justifica-se pela mais seca das causas. Nada tenho a dizer neste lugar, pelo menos por agora, enquanto me sentir assim, como uma linha constante e ininterrupta bem acima do horizonte. Não conhecia este estado, pelo menos, não em permanência. A felicidade com a paz. Confesso que sempre a sonhei mas sempre a temi, também. Julgo que pode ser perigoso andar por aí satisfeita com a vida. Talvez porque sempre achei que a solidão e a ausência de satisfação servem à atenção tão perfeitamente quanto a felicidade serve à distracção. Houve dias – muitos – em que me sentia como um balão a vogar na estratosfera. Tinha, literalmente, de puxar a corda e forçar-me a chegar até ao chão, e sei que vou ter mais dias assim. Sei. A alma é um precipício, disse a Yvete Centeno, e como tem razão. A distracção tem um preço alto. Não deixa de ser curioso que no curso da minha viagem interior e no gozo da minha solidão tenha tido este encontro. É a qualidade e a profundidade desse encontro que me traz uma nova interrogação: será que o novo desafio é saber estar simultaneamente atenta e satisfeita? Parece-me um desafio muito maior do que o anterior e agarro-o, alegremente, com ambas as mãos. Não tenciono perder nada.

Dizer o indizível

Lembraste-me, um pouco em tom de brincadeira, de escrever um dia sobre ti. Como se esta página virtual fosse a superfície de uma pedra e eu pudesse nela gravar, a cinzel, o desenho do teu nome e assim inscrever-te no meu coração.
Pensei então na frase: “no princípio era o verbo”, e no que significa:
No início foi necessário tornar o indizível dizível.
Só existe o que é pronunciável. Ou: Só o dizível é real.
(O próprio Wittgenstein, que era um génio, dizia que sobre aquilo que não conhecia - falando da metafísica e do transcendental - não se podia pronunciar…)
Realmente não sei como se diz o indizível.
Será que isso impede a (re) criação do meu mundo?
Talvez, para que tudo comece, seja necessário que eu te diga, um pouco assim, como a palavra Partida, no início de uma corrida. Uma questão de sinalética.
Talvez não te diga, e no entanto, já tudo começou.

A prática do caos e o descanso da geometria

Nos idos de 90 assisti à demonstração de um modelo computacional da Teoria do Caos. Fiquei absorta, fixa no ecrã do computador, completamente alheia ao tropel de explicações. Um novelo de linhas emaranhadas, sempre sempre em movimento e de repente, por breves instantes, uma figura geométrica e outra, perfeitas. Depois os novelos, os novelos, os novelos, a geometria, e por aí fora. A ordem do caos, ou o caos da ordem. Enfim, em resumo, não há caos sem ordem, ou como diz a sabedoria popular, bem mais mordaz, não há mal que sempre dure nem bem que perdure.
Pois bem, ando numa fase ordenada, em perfeita geometria, deito-me num lado de um quadrado e acordo noutro lado, igualzinhinho ao primeiro. Um descanso. Para melhorar tudo isto, à minha volta estão uns bonitos hexágonos e triângulos equiláteros descansando ao lado de perfeitas circunferências. Tudo encaixa e faz sentido, comentava noutro dia a C., já que todas andamos assim, numa fase de perfeita geometria, a apreciar o nosso desenho e o desenho das outras.
Sei (Sabemos), está para vir um monte de novelos, pretos-vermelhos-azuis-verdes, todos eriçados e muito descompostos, mas, no entretanto, percorro a área do quadrado onde vivo no mais alegre e tranquilo dos abandonos, escuto as gargalhadas dos meus vizinhos-triângulos-hexágonos-circunferências e rio, mais alto ainda.
Quem tem medo do caos? Eu já não.

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