Num lugar que já não o é e onde sempre volto, as imagens que construo e aquilo que penso e vejo nos lugares por onde ando.

Francis Bacon – o corpo dissolvido



Retrospectiva de Francis Bacon (Museu do Prado, Madrid)
No fim, sentei-me a ver a entrevista de B a David Sylvester, já a tinha lido mas nunca a tinha visto. Achei graça à (aparente) segurança de B, ao cuidado com que discursava sobre o seu trabalho. Mas o que nos está demasiado próximo nunca pode ser suficientemente claro e creio que B não era tão ateu quanto disse ser… Se, como diz Salim Michael, a encarnação de Cristo partiu da necessidade de este experimentar a dualidade (espírito e corpo) e se o sofrimento carnal e a crucificação são o limite último dessa vivência, então B soube representar, como ninguém, a experiência humana e o difícil que é existir e sofrer, o exemplo de Cristo. Nesse sentido, a sua visão e a sua imagética inserem-se não apenas na história da representação do corpo mas também na história da arte sacra ocidental. Foi isso que pensei. Mas só o vi claramente quando, no fim, fui revisitar os mestres antigos no Prado e dei comigo em frente ao (sublime) Descimento da Cruz, de Van der Weyden.


A mesma carne, o mesmo sofrimento.

0 comentários:

Arquivo do blogue

Etiquetas