Num lugar que já não o é e onde sempre volto, as imagens que construo e aquilo que penso e vejo nos lugares por onde ando.

A Morte do Senhor F.

Mal conhecia o Senhor F., apenas o vira uma vez, já muito doente, há um tempo atrás. Como era pai da minha amiga R., estive presente nas suas exéquias, eram horas difíceis para ela. Fomos de carro, a C. e eu, palrando até lá perto de Viseu. É sempre estranho quando estamos presentes na partida de alguém que não acompanhamos em vida. E então fiquei por ali, atenta à minha amiga – comida, água, pastilha, lenço... Não me lembro de ter visto tanta gente a chorar e a abraçar-se daquela maneira, naquelas circunstâncias. Percebia-se que aquela pequena comunidade estava de luto e em genuíno sofrimento. Lá seguimos, em procissão, paramentos brancos e verde-esmeralda muito brilhante no horizonte, marcando o passo. Eu mal conheci o Senhor F. E a igreja tão bonita, a talha de desenho ingénuo, os caixotões do tecto a abarrotar de pinturas inocentes. Linda. E os bancos que de tão amontoados mal deixavam espaço para os pés, todos a andar de lado, com jeitinho, apertadinhos e com medo de cair. A Igreja cheia. Eu mal conheci o Senhor F. E então o padre começou a falar, emocionado, lágrima-ao-canto-do-olho, sobre o Senhor F. Depois veio a mãe da R. e leu um poema que já tinha lido dois anos antes, em ambiente festivo, e uma onda de emoção a todos estremeceu. Meu amor, disse. Ficou tudo emaranhado. Aquela mulher tem coragem. E eu, que mal conheci o Senhor F., dei por mim pensando que gostava de ser assim, gostava de ser como o Senhor F.

1 comentários:

mariagoestravelling disse...

Também eu gostava de ser como ele. Tenho saudades... muitas!

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